Irei comentar nesse post sobre o programa de Rachel Maddow que foi ao ar em princípios de 2009, e analisando a conjuntura política americana desde essa data até os dias de hoje (estamos em janeiro de 2011). Se você entende inglês, sugiro que assista a entrevista.
http://www.youtube.com/watch?v=NudB59hzdEk&feature=related
O "Rachel Maddow Show" é o programa da apresentadora Rachel Maddow, da MSNBC, que foi ao ar pela primeira vez em 2008.
Rachel Maddow é uma eloqüente porta voz da esquerda americana, e esse episódio do programa demonstra um certo excesso de auto-confiança que tomou conta da apresentadora e também de toda a esquerda americana (e porque não dizer, mundial?), logo nos primeiros meses de mandato do presidente Barack Obama, período conhecido como "lua de mel" entre o presidente e os eleitores.
Realmente, o cenário parecia bastante favorável à esquerda, o que quer dizer, aos democratas. (Nem todos os democratas são de esquerda mas isso fica para outro post). Como lembra Rachel, os democratas acabaram de eleger o presidente e possuíam maiorias confortáveis tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado.
Mais que isso, havia a saída de um presidente amplamente impopular do campo oposto (preciso dizer o nome dele?) e agora os americanos confiavam o destino da nação a aqueles que prometiam Hope (esperança), e mais significativo, Change (mudança), a um candidato pertencente a uma minoria racial que até há relativamente bem pouco tempo atrás era vítima de grande discriminação no país.
Do lado republicano, de fato, as coisas não iam bem. O caos parecia tomar conta. O partido estava desacreditado e desorganizado; não havia uma forte liderança formal; não havia ainda surgido o movimento conservador "Tea Party", que sacudiu e continua sacudindo Washington e todos os Estados Unidos. (Falar mais especificamente sobre o Tea Party exigiria um post próprio).
O novo líder do partido era Michael Steele, um político negro, provavelmente escolhido para contrabalançar a influência dos democratas junto aos negros e as minorias em geral. Mas não foi um início promissor, e o estilo excessivamente centralizador de Steele era visto com desconfiança e ceticismo entre os próprios republicanos. Rachel Maddow relata com certa perplexidade como ele demitiu praticamente todos os alto funcionários que trabalhavam para o RNC (o Comitê Nacional Republicano), deixando um grande vácuo na organização e estrutura interna partido. Ela também lembra que pairam sobre Steele suspeitas de corrupção e favorecimento ilícito.
Mas, de acordo com o que Rachel diz em seu programa, apesar dos republicanos não terem uma forte figura de liderança formalmente, havia sim um líder informal, esse líder sendo o radialista conservador Rush Limbaugh. Dono de uma gigantesca audiência em seus programas de rádio (algo na casa de dezenas de milhões de ouvintes), e conhecido por suas declarações altamente polêmicas, Limbaugh estava sendo muito comentado na época por conta de ter dito: "Eu quero que Obama fracasse".
Desnecessário dizer que isso foi visto com grande repúdio pelos democratas, que acusaram logo os republicanos de estarem tramando para agir contra o presidente, contra o governo americano e contra os interesses nacionais apenas para obterem ganhos políticos imediatos. Rachel Maddow corrobora essa visão.
Na segunda parte do show, ela entrevista o governador republicano do estado do Minnesota, Tim Pawlenty. Rachel, hábil debatedora e oradora, fez o que pôde para colocar o governador contra a parede, mas enquanto vi a entrevista, fiquei surpreso com a calma, serenidade e "jogo de cintura" do governador. Lembro-me de ter visto outra entrevista em que o entrevistado, confrontado, partiu para o ataque contra a entrevistadora, e a entrevista acabou descambando para uma troca de ofensas e acusações. (Se quiser ver o duelo, digite no youtube Rachel Maddow x Art Robinson).
Mas voltando a entrevista de Tim Pawlenty, vou destacar aqui as partes mais relevantes. A primeira pergunta que Rachel faz é: "Você acha que Rush Limbaugh está errado em sua declaração de que ele quer que o presidente fracasse?"
Uma pergunta capciosa, pois se ele respondesse que "sim" Rachel diria que ele estava conspirando contra os interesses de seu próprio país; se respondesse que "não" ia ficar mal com a grande militância conservadora que adora Rush Limbaugh. O que ele respondeu? "Eu acredito que Rush quis dizer que ele quer que as políticas socialistas de Obama falhem, não que o país falhe." Ele também defende Michal Steele: em suas palavras, um líder dinâmico, e também diz que os republicanos estão renovando suas lideranças, portanto não é verdadeira a percepção de que o caos no partido veio para ficar. Apenas, pessoas novas estão vindo e lideranças antigas estão sendo substituídas.
Rachel insiste: "O presidente está lutando para tirar o país do colapso em que estamos e suas políticas são para fazer nós sobrevivermos a esse colapso, então, para mim, parece que torcer para que o presidente falhe é o mesmo que torcer para que o país falhe. Não é isso?"
Pawlenty mais uma vez responde politicamente: "Do meu ponto de vista, devemos desejar sorte ao presidente Obama. Mas isso não quer dizer que devemos concordar com ele em tudo." (Bastante óbvio em se tratando de um partido de oposição, não?) "Rush Limbaugh é contra as políticas do presidente, e ele quer que elas sejam derrotadas, ou então que fique claro que elas são ineficientes" - continua Pawlenty.
"Rush Limbaugh disse que quer que o presidente falhe. Foi isso que ele disse, mas você não pode dizer que discorda dele porque se fizer isso você irá parecer um traidor para a militância republicana que segue ele" - prossegue alfinetando a apresentadora.
Pawlenty procurou então relativizar a importância de Limbaugh, que a apresentadora queria apresentar como o líder de facto dos republicanos.
"Eu apenas resumi o que ele disse, ele pode responder por si mesmo mais diretamente. Mas vamos lembrar mais uma vez a questão do líder do partido: o partido não tem um líder. Rush Limbaugh tem um grande talento e dom para informar as pessoas, persuadir as pessoas, mobilizar as pessoas, ele tem grande influência, assim como você (nesse momento ele se dirige a Rachel Maddow) tem influência com a sua audiência, Keith Olberman tem influência com sua audiência..."
Assim prossegue, com Rachel tentando apanhar seu entrevistado, mas ele demonstrando porque, afinal de contas, é um político. Em outro momento ele considera: "Isso não é sobre subtração, é sobre adição, nós precisamos formar uma coalizão que envolva todos os tipos de republicanos, independentes e democratas que quiserem se juntar a nós. Uma parte da coalizão é Rush Limbaugh e todos os seus seguidores, é uma grande e importante parte da nossa coalizão, mas não é a única."
Rachel acaba elaborando uma réplica fraca, ainda sobre a posição de Pawlenty sobre Limbaugh: "Eu honestamente não acredito que você acredite nisso."
Voltando agora ao tema do início do post, o triunfalismo da esquerda naquele momento da lua de mel de Obama com seus eleitores. Rachel desiste de constranger seu entrevistado na questão da declaração de Rush Limbaugh, e aborda a questão de quem a população americana realmente apóia. Citando números: "pesquisas mostram que a população americana confia mais nos democratas, em assuntos como economia a liderança dos democratas chega a 30 pontos... você não acha que está na hora do Partido Republicano se tornar mais moderado?"
Pawlenty se mostrou confiante e não titubeou. "Eu acho que o partido continuará a ser um partido conservador. Sugerir que ele se torne algo diferente disso desafia a história e desafia os princípios no qual o partido foi fundado."
Naquele momento específico, quem assistiu ao programa e vendo as declarações de Pawlenty pode ter pensado que a história passaria por cima dos republicanos e toda a sua teimosia em não refrear o seu conservadorismo, e parecia uma grande insensatez se opor a Obama, que gozava de grande popularidade não apenas nos Estados Unidos como em todo o Ocidente.
Passados quase dois anos daquela entrevista, no entanto, o que aconteceu? Obama está longe de ser uma unanimidade, e o conservadorismo, longe de ter morrido, ressurgiu e continua forte nos Estados Unidos. Obama conseguirá um segundo mandato? Isso é impossível dizer, pois como vimos, o mundo dá muitas voltas. Mas uma coisa é certa: se Rachel Maddow e outros porta vozes da esquerda chegaram a pensar que a era Obama iria ser o fim da linha para o conservadorismo, se enganaram, e se Pawlenty na época pareceu ser insensato, hoje em dia não parece mais.